segunda-feira, 22 de novembro de 2010
A primeira coisa linda
domingo, 21 de novembro de 2010
Quando partimos
Depois de ganhar o troféu "Bandeira Paulista" de melhor filme na Mostra de São Paulo, "Die Fremde", da austríaca Feo Aladag, está sendo indicado ao Oscar de filme estrangeiro do próximo ano. Com roteiro da própria diretora, que também é atriz, "Quando partimos" conta a história trágica, como tantas, da muçulmana Umay, casada com um turco de Istambul. Depois de realizar um aborto contra a vontade, a moça abandona o marido opressor, que batia nela e no filho, e volta à casa da família em Berlin, com o pequeno Cem a tiracolo. Para sua decepção, os pais e irmãos, também muçulmanos, não aceitam a separação e passam a vê-la como uma ameaça à boa reputação do clã. Chegam a concordar com a idéia de que Cem devia ser entregue ao pai violento. Também se apavoram diante do perigo que uma irmã separada representa para o casamento da filha caçula. Desconsolada com a falta de apoio da mãe e com a prepotência do pai e dos irmãos, Umay abandona a casa paterna atrás de um emprego e de um lugar para morar. A submissão da mulher na sociedade muçulmana não é novidade no cinema. Também vemos, a toda hora na mídia, casos de assassinatos e outras insanidades cometidas em nome de Alá. O que torna "Quando partimos" diferente dessas histórias reais ou fictícias é o foco nos sentimentos da protagonista. Alguns críticos se incomodaram com o fato de a moça não tomar nenhuma atitude drástica para romper com essa família tão pouco acolhedora. Aí é que entram os afetos de que trata a Psicanálise. Umay amava aquela família. Não conseguia aceitar por que o pai dava mais importância ao "que os outros iriam pensar" do que às suas necessidades. Tampouco entendia como a mãe, de quem esperava amor incondicional, se afastara dela na hora em que ela mais precisara. Mais do que um filme sobre a repressão muçulmana, "Quando partimos" é um mergulho no drama da rejeição. Quando a amiga e patroa diz a Umay que, dali pra frente, sua família seria só ela e o filho, não deve ter sido fácil para a moça receber aquela verdade. Assim como não é para nenhuma mulher que passa a ser rotulada de "puta", por ter desafiado as regras paternas, em famílias católicas, evangélicas ou judias. É nessa hora que a Psicanálise pode ajudar pais e filhos a digerirem essas verdades. Mas se olhar no espelho exige tanta ou mais coragem do que desafiar regras e quebrar tabus.
sábado, 20 de novembro de 2010
Dois irmãos
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Minhas mães e meu pai
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Submarino
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
A era do rádio
sábado, 6 de novembro de 2010
Esplendor na Relva

Baseado num poema de Woodworth sobre a nostalgia da infância, "Splendor in the Grass", "Clamor do Sexo" aqui no Brasil, é o primeiro de uma série de filmes de Elia Kazam que decidi assistir depois de ter me apaixonado por "Carta para Elia", o documentário em que Scorcese homenageia o cineasta grego. Retrato da América dos anos 30, o filme que consagrou e juntou na vida real Natalie Wood e Warren Beatty, tem os dois pés na Psicanálise. Deanie Loomies, a garota certinha do Kansas, é apaixonada pelo charmoso Bud Stamper. E ele por ela. Mas a moral da época e a marcação cerrada da família, impedem a moça de dar vazão à sua libido. Numa associação bem fálica, mamãe Loomies recomenda a Deannie antes de dormir : Não deixe o pernilongo te picar ! O pernilongo, no caso o belo herdeiro da família mais rica do pedaço, não se aguenta mais de tesão! E pede um tempo. Até porque concorda em preservar a inocência da namorada. Não quer que ela vire uma garota fácil e mal falada como sua irmã Ginny, além de tudo alcólatra. A repressão sexual da moça, provavelmente influenciada pela divulgação dos conceitos freudianos, na época, a leva uma um verdadeiro ataque histérico quando percebe estar perdendo seu grande amor por não ceder aos próprios desejos. Mas esses não são os únicos ingredientes psicanalíticos do filme. A relação de Bud com o pai, que o obriga a ir para a universidade, quando tudo o que deseja é cuidar da fazenda da família, tem elementos edipianos: o rapaz só concretiza seu sonho depois da morte do velho. Pra completar, numa época em que psicanalise e psiquiatria andavam de mãos dadas, é na clínica do Dr. Judd que nossa Deanie experimenta o divã. Se o analista consegue curá-la, não ficamos sabendo. Mas depois da clínica, a moça reúne forças pra encarar aquele passado que aos olhos da sua mãe parecia tão ameaçador. Revendo Bud no papel de criador de porcos e marido da filha da pizzaiola, com um filho no colo e outro na barriga da patroa, ela se toca do quanto havia de fantasia naquele amor, e do quanto a vidinha pacata na fazenda não tinha nada a ver com ela.
sábado, 14 de agosto de 2010
Reflexões de um Liquidificador

André Klotzel tem mão pra comédia. Foi a lembrança das cenas hilárias da Fernandinha Torres em “Marvada Carne” que me levaram a enfrentar esta tarde gelada de sábado pra assistir ao último filme do diretor. Com a excelente Ana Lúcia Torres no papel de uma dona de casa de classe média baixa de São Paulo, o filme tem como personagem principal um liquidificador velho, mas ainda na ativa, que não só narra o filme com a voz do Selton Mello, como também troca idéias com sua dona. Mais que isso, o eletrodoméstico é cúmplice da esposa do Seu Onofre, quando esta, ao descobrir que o sacana tem uma amante jovem, resolve, literalmente, moê-lo no eletrodoméstico. Essa “Chico Picadinho” de saias, é investigada ao longo do filme por um policial que desconfia dela. Infelizmente, pra polícia e pra justiça, a criminosa jamais poderá ser condenada já que o corpo foi pelo ralo. O bacana do filme é que Klotzel não se mete a julgar a assassina, muito menos se dá ao trabalho, que também poderíamos pretender nesse blog, de analisar sua ausência de culpa como um sinal de psicopatia. Tudo isso, André joga pra nós, espectadores. Na verdade o melhor do filme, pra mim, e que justifica comentá-lo aqui, aconteceu no toalete do cinema. Ao saber que eu e outra espectadora iríamos assistir ao filme, uma senhora tentou nos dissuadir. “É um filme de humor negro!”, “ainda dá pra vocês trocarem de sala!”. Ao longo do filme, entendi o desconforto daquela mulher. Quem não garante que ela não tenha tido um impulso semelhante de se livrar de um marido velho e galinha e jamais tenha conseguido admiti-lo pra si mesma?
domingo, 13 de junho de 2010
Dr T e as mulheres

Com o charmoso Richard Gere no papel de um ginecologista bem sucedido, Robert Altman, retrata, com o sarcasmo de sempre, o mundo perfeito e barulhento das mulheres de classe média alta de Dallas, em nada diferente do das nossas peruas da alta sociedade. No começo do filme, descobrimos que a esposa do médico está pirando. Numa visita ao shopping, programa preferido de 9 entre 10 madames, ela larga filhas e irmã numa loja e desaparece do nada. Mais tarde a família é avisada que está presa, depois de dançar nua na chafariz do templo de consumo. Internada numa clínica, Kate, numa ótima performance da pantera Farrow Fawcetts, é diagnosticada como portadora do Complexo de Héstia. Não achei nada na web sobre essa patologia. Segundo a psicóloga do filme, seria uma síndrome que ataca mulheres, principalmente da classe alta, que são amadas demais. Se non e vero, e bem trovato. Como estão com a vida ganha, em todos os sentidos: têm dinheiro, amor, carinho da família, entrariam num processo de regressão a um estado infantil, rejeitando o sexo, como se tivessem voltado a ser virgens. De fato, Héstia, filha de Cronos e irmão de Zeus, preservou sua virgindade e é considerada a deusa do lar, da família. Numa interpretação jungiana do filme, Kate seria considerada uma mulher Héstia, voltada pra família. Mas pelo desenrolar dos acontecimentos, que nos filmes de Altman é sempre frenético, eu apostaria que a perturbação daquela mãe de noiva tinha outra origem. Às vésperas de se casar com um mauricinho aprovado pela família, a filha Dee-dee, papel de Kate Hudson, é apontada pela irmã Connie, que morre de inveja dela, como lésbica. Papai T se choca com a notícia. Mas duvido que mamãe Kate já não tivesse percebido a inclinação homossexual da menina. Afinal, pra que serve a intuição feminina? Como o que leva uma moça a preferir fazer sexo com outra, segundo Freud, é uma fixação numa fase imatura da sexualidade, a fase fálica, dá pra concluir que, no caso, quem regride não é a mãe e sim, a garota. Que leva sua opção às últimas conseqüências, largando o noivo no altar pra fugir com a namorada. Como se sente uma mãe diante de uma constatação dessas? No mínimo, bate aquela culpa: onde foi que eu errei? Se essa culpa pode levar uma perua a ficar pelada no Shopping, não sei, não conheço profundamente os aparelhos psíquicos dessas senhoras. Mas quero estar preparada pra um dia ouvir uma confissão dessas numa sessão de Psicanálise.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Não se preocupe, estou bem

Dirigido pelo francês Phillipe Loiret, “Je vais bien, net’en fais” é um ótimo filme e está passando esses dias no Telecine Cult. Conta a história de Elise, uma garota de classe média parisiense, que aos 19 anos viaja para a Espanha de férias e quando volta, descobre que seu querido irmão havia se desentendido com os pais e saído de casa. Atônita, a menina cai numa depressão profunda e é internada numa instituição psiquiátrica onde, por se recusar a comer, acaba sendo alimentada por soro. No fim do filme vamos descobrir que quem precisava de tratamento psiquiátrico eram os pais. Mas, nesse meio tempo, o pai traz uma carta do irmão pra ela, o que lhe devolve a vontade de viver. Na volta pra casa, passa a receber, a cada semana, um cartão postal do irmão, de diferentes lugares da França. Na correspondência, o pai é sempre criticado, enquanto pra ela e pra mãe o irmão envia beijos afetuosos. Um dia, ela flagra o pai colocando um cartão no correio de uma cidade próxima. Agradecida pela atitude paterna que, mal ou bem, salvara-lhe a vida, a jovem decide apresentar à família seu novo namorado, ex da sua melhor amiga. Sem querer, o rapaz desvenda o verdadeiro motivo do desaparecimento do cunhado. Não vou contar pra vocês, se é que alguém lê esse blog, pra não estragar a surpresa do filme. Independente desse segredo, o filme aprofunda uma questão fundamental nas relações entre pais e filhos. Por que os pais insistem tanto em “poupar” os filhos? Esconder, mentir, tapar o sol com peneira, são formas de mascarar a realidade que às vezes consideramos “pesada” pros nossos pequenos. Mas eles precisam crescer. Não só física como emocionalmente. Jogar a verdade pra baixo do tapete pode amenizar seu sofrimento. Mas não os ajuda nessa tarefa árdua do crescimento. Pra Psicanálise, o não-dito, as entrelinhas, as desculpas esfarrapadas, magoam tanto quanto ou mais que certas verdades. Como se alojam direto no nosso inconsciente, depois dão o maior trabalho pra serem resgatados. Por mais dolorosa que seja, acredito que a verdade deve nortear nossa relação com nossos filhos. Já chega os segredos que nossos pais esconderam de nós por tanto tempo. Alguns velhinhos levam o hábito da mentira até o fim da vida. Filhos só crescem quando os ajudamos a encarar a vida como ela é desde cedo. Sem maquiagem, sem pílulas douradas. Apoiá-los, sempre. Deixar claro que estamos ao seu lado pro que der e vier. Mas jamais impedi-los de encarar suas verdades.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Caos Calmo

Dirigido por Antonello Grimaldo, não foi à toa que “Caos Calmo” recebeu indicação ao Urso de Ouro em Berlim e mais três David di Donatello 2008. Assim como o filme anterior do diretor, “O Quarto do filho”, “Caos calmo” trata do luto. Enquanto o protagonista Piero (Nanni Moretti) está salvando duas mulheres de um afogamento, sua esposa morre, de repente, em casa, deixando-lhe uma filha de 10 anos pra cuidar. Pra Freud, o luto é a reação à perda de um ente querido ou de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal. Em algumas pessoas, estas influências produzem melancolia em vez de luto. Não é o caso do nosso personagem. Segundo o mestre da Psicanálise, o luto afasta a pessoa de suas atitudes normais pra com a vida. De fato, após a morte da esposa, Pietro se afasta do emprego e passa a dar plantão na praça em frente ao colégio da filha. Sentado no banco da praça, ele calmamente elabora sua perda. Apesar do sangue italiano, atinge seu objetivo sem lágrimas, gritos ou ranger de dentes. Nas conversas com os parentes e amigos que o procuram na praça fica claro o espanto diante da reação cool do viúvo, reação essa que se repete na filha, mostrando a força do exemplo na formação das crianças. Mas voltando à Psicanálise, sabemos que este afastamento da vida normal não é patológico quando, após certo tempo, é superado. Esse tempo varia de pessoa pra pessoa. O de Pietro termina no dia em que a filha Cláudia lhe pede, de presente de aniversário, que este deixe de esperá-la à tarde inteira em frente à escola. Esse diálogo é um exemplo de relacionamento saudável entre pai e filha. Ele aceita o pedido da menina com a mesma calma com que lidou aqueles meses todos com seu luto. Sem mágoas, sem se ofender, nem se sentir rejeitado. Quantos “pães”, isso mesmo, aqueles homens que por viuvez ou separação assumem o duplo papel na educação dos filhos, aceitariam tal pedido com tanta fleugma?
domingo, 23 de maio de 2010
Melhor impossível

Já tinha gostado desse filme na época do lançamento, 97/98. Ontem, quando vi que estava passando no Universal Channel , resolvi revê-lo com olhar de estudante de psicanálise. O personagem principal, o escritor Melvin, mais uma brilhante performance de Jack Nicholson, sofre de uma patologia conhecida como TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo. Sua ansiedade se manifesta através da repetição compulsiva de rituais: só pisa em determinados pontos da calçada, fecha a porta várias vezes, chega ao restaurante sempre à mesma hora, etc. Além disso, Melvin é mal-humorado, egocêntrico e implicante. Ele conta ao psiquiatra que, quando era criança, seu pai autoritário o repreendia severamente quando errava as notas ao piano. O TOC, todavia, não é a única seqüela dessa educação excessivamente rígida. O escritor também sofre um bloqueio afetivo. Quando se percebe interessado pela garçonete Carol, não consegue demonstrá-lo. Chega a ajudá-la no tratamento do filho doente, mas ao convidá-la pra sair é incapaz de tirá-la pra dançar. Outro tema psicanalítico do filme é a sublimação, o único mecanismo de defesa saudável que nosso aparelho psíquico produz. O vizinho de Melvin é um pintor gay. Depois de sofrer um assalto violento, fica impossibilitado de pintar. Procura os pais pra pedir ajuda e recebe um sonoro não. Arrasado pela rejeição da família, motivada por preconceito, se aproxima de Carol. Numa noite, ao contemplar suas costas semi-nuas da moça no banheiro da suíte que compartilham, sua inspiração retorna. Sublimar seu sofrimento através da arte devolve-lhe a alegria de viver. Seu exemplo e seus conselhos estimulam Melvin a entrar em sintonia com os próprios sentimentos e procurar a garçonete. É quando ele percebe que não está mais fechando porta vária vezes: está se curando do TOC. Claro que na vida real as coisas não são tão fáceis. Mas entrar em contato com nossos desejos e afetos é meio caminho andado pra nos livrarmos de pensamentos e atitudes obsessivas. Pra isso a psicanálise tem muitas ferramentas.
domingo, 16 de maio de 2010
Pecados inocentes

Baseado na vida da socialite americana Barbara Baekeland, que foi casada com o dono da Baquelite, “Pecados inocentes” aborda um dos maiores tabus da sociedade ocidental: o incesto. Até pouco tempo, eu acreditava que a origem da proibição de uniões entre familiares estaria na probabilidade biológica de nascerem crianças com má-formação se os pais transassem com as filhas, as mães com os filhos ou irmãos com irmãs. Balela! Tanto nascem crianças “com problemas” de pais parentes quanto dos que não o são. Segundo a antropologia, essa interdição foi uma maneira de nossos antepassados forçarem a aproximação entre grupos sociais diferentes, fundamental pro desenvolvimento da comunicação e das ferramentas. Mas a proibição ficou lá, guardada no inconsciente dos primeiros humanos e foi passando de geração em geração até consolidar-se naquilo que Freud chama de Superego, uma espécie de juiz que diz pro ego o que é certo e o que é errado. Desse embate entre as regras do superego e os desejos do id é que nascem nossos maiores conflitos. Voltando ao filme, Barbara tem um filho chamado Tony, apaixonado por ela, como todos os bebês. É o Complexo de Édipo que, normalmente, se resolve quando o menino aceita que é o papai e não ele, o companheiro da mamãe. E que este pode ensiná-lo a ser um homem de verdade pra, um dia, conseguir uma mulher tão bacana quanto a mamãe. Como alem de não ser um cara bacana, com o tempo, o pai de Tony cai fora, o garoto leva seu Édipo às últimas conseqüências e acaba transando com a mãe. Chegam a formar um triângulo amoroso com um amante bissexual de Bárbara. Mesmo filmadas com toda a delicadeza, as relações incestuosa chocam o espectador. E provavelmente seus protagonistas. Ao ponto de Tony terminar matando a mãe. Não satisfeito, sai da cadeia anos depois e liquida a avó! Finalmente, se mata. Tragédia pouca é bobagem nesse embróglio familiar que é um prato cheio pros discípulos de Freud. Teria o rapaz sentido tanta culpa por ter tomado o lugar do pai no leito materno a ponto de punir a mãe pela permissão? E a avó? O que a pobre senhora tinha a ver com isso? Culpa por ter botado no mundo uma filha tão devassa? Vai saber? Nesses celeiros de culpas e fantasias que são nosso inconsciente nada vai parar lá por acaso. Há conteúdos que são nitroglicerina pura: tão perigosas pro próprio sujeito quanto pra quem convive com ele. Inclusive o psicanalista.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Moulin Rouge

Adaptado do livro homônimo, que li aos 11 anos num Carnaval “de molho”, com hepatite, o filme “Moulin Rouge” de John Houston conta a história de Henri Toulouse-Lautrec, com as cores impressionistas de seus quadros. Filho de uma família nobre, o garoto Henri nasce com uma atrofia nas pernas e atinge a idade adulta com a altura de um anão. Rejeitado pelas mulheres do seu ambiente social, muda-se para Paris e se envolve com prostitutas e com as dançarinas do Moulin Rouge, o cabaret mais famoso do mundo. Sob o ponto de vista psicanalítico, é uma história de sublimação. Toda a dor da rejeição, da feiúra, do desprezo do pai, que não valorizava sua profissão, Lautrec desloca pra sua arte. Essa dedicação aos pincéis até ameniza seu sofrimento. Mas não impede que sobrem muitas mágoas pra serem afogadas no absinto, uma bebida que é quase um alucinógeno. Apaixonado pela mãe que o protege até o fim, Henri, aparentemente, não consegue “resolver” seu Édipo identificando-se com a aquela figura paterna nobre, arrogante e improdutiva. Esse motivo, somado à baixa auto-estima advinda do deplorável aspecto físico, o incapacitam a viver uma relação amorosa saudável. Porisso ele paga pelas companhias femininas. Quantos homens e mulheres rejeitados pela mãe e/ou massacrados por um pai autoritário não vivem relações desse tipo ainda hoje? E sem o talento do impressionista, primeiro artista a ter um quadro no Louvre em vida, pra sublimar sua dor em cores tão magníficas.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O preço da traição

“Chloe”, dirigido por Atom Egoyan, é a versão americana de um filme francês sobre traição. A dúvida é quem trai quem. No aniversário de David, Catherine, sua esposa ginecologista, prepara uma festa surpresa pra ele. O aniversariante, que deveria chegar de uma viagem de negócios, perde seu vôo, para decepção da esposa e consternação dos convidados. No dia seguinte, Catherine descobre, pelo celular do parceiro, que ele havia passado a noite com outra mulher. Desesperada, e querendo saber até que ponto seu casamento está vulnerável, a doutora contrata uma prostituta pra seduzir David. Mas não percebe que é nela, Cahterine, que a garota de programa fica interessada. A menina começa a inventar uma série de encontros calientes com David, pra provocar ciúmes na médica. E consegue. Catherine acaba indo pra cama com ela. Como todos nós, ela tem seu lado bi-sexual e consegue ter prazer na relação lésbica. O que não impede que continue apaixonada pelo marido. Ao certificar-se da fidelidade de David, tudo que ela quer é ficar numa boa com ele e esquecer-se da jovem Chloe. Mas não contava que a moça se apaixonasse por ela. Se é paixão, ou obsessão de alguém tentando representar uma mãe ausente na infância, não temos elementos pra afirmar. Mas uma coisa dá pra concluir dessa história e de outras que acontecem em filmes ou na vida real. Precisamos fazer nossas escolhas com consciência. Principalmente se elas envolvem o emocional de outra pessoa. Catherine usou a menina pra resolver sua insegurança conjugal. Não ponderou que havia um ser humano por trás daquele rostinho bonito, com suas carências, necessidades e desejos. Ao tentar se desvencilhar dela, percebeu a enrascada em que se metera. As conseqüências foram trágicas. Se “Chloe” não fosse um filme, dificilmente o aparelho psíquico de Catherine passaria incólume por tal episódio. O superego não brinca em serviço. Quantas sessões de divã seriam necessárias pra expurgar a culpa de ter usado e jogado fora a prostitutazinha?
sábado, 8 de maio de 2010
Divinos Segredos

Dirigido por Callie Khouri, a premiada roteirista de "Thelma e Louise", “Divinos Segredos” traz Sandra Bullock e Ellen Burstyn nos papéis de uma mãe e uma filha cheias de conflitos. A filha Sidda é uma escritora famosa que, numa entrevista à Time, conta que sua infância infeliz a teria ajudado na carreira literária. Ao ver sua intimidade exposta, a mãe Vivi fica uma fera e inicia uma guerra de bater telefone uma na cara da outra. Quando a briga parece tomar o rumo de um rompimento, as três melhores amigas da mãe decidem intervir. Depois de um “Boa noite Cinderela”, seqüestram a jovem e a apresentam ao passado da mãe. Como na maioria das relações mãe e filha, a daquelas duas encerra um vale de mágoas e segredos. Afora os fatos intencionalmente ocultados das crianças, como a internação de Vivi após um surto psicótico, outros, por seu conteúdo extremamente doloroso, também haviam sido, por um mecanismo de defesa de Sidda, empurrados pro fundo do seu inconsciente. Exemplo: a surra que Vivi, ensandecida, aplicara nos filhos no meio da chuva. No acolhedor “cativeiro” das “tias”, Sidda se depara com fotos e recordações de uma Vivi adolescente, apaixonada pelo irmão de uma das amigas, que vai à guerra e não retorna. Casada com o pai de Sidda, Vivi, que sonhava ficar famosa, não se conforma com a vida medíocre de mãe de três pimpolhos e dona de casa. Descarrega toda sua frustração na bebida e nos remédios. As crises se agravam e as crianças sofrem. Como é usual nesses casos, tanto sofrimento afeta a capacidade futura de Sidda se entregar numa relação amorosa. Até porque nem só de lembranças tristes é povoado o nosso inconsciente. Ali também ficam armazenadas as culpas. Apaixonada pelo pai, como todas nós, segundo Freud, ela também carrega uma culpa indevida pela doença e depois pelo sumiço da mãe. Quando as lembranças são trazidas à tona e os mistérios esclarecidos, o alívio é geral. Claro que na vida real as coisas não seriam tão simples. Exigiria todo um trabalho psicanalítico pra que essas lembranças fossem elaboradas. Mas como é um filme, Sidda consegue se harmonizar com a mãe e, de quebra, se comprometer definitivamente com o companheiro que, há muito, esperava pra casar com ela. Vivi, por sua vez, livre da culpa de ter sido uma péssima mãe, cura as feridas na relação com a filha, e ainda descobre que era amor a paciência que o marido teve a vida inteira com ela.
Camisa de força

Dirigido pelo inglês John Maybury e produzido por George Clooney e Steven Sodenbergh, “The Jacket” conta a história de um veterano da Guerra do Golfo que, depois de levar um tiro na cabeça num assalto, é acusado de ter matado um policial e vai para um hospital psiquiátrico cumprir pena alternativa. Ali, é submetido a choques elétricos que o transportam a um tempo futuro. Tentando uma leitura psicanalítica de suas alucinações, diria que a figura do médico da clínica, Dr. Becker é uma representação do Pai, poderoso e repressor, objeto do ódio de Jack, que deseja matá-lo. Mas em sua alucinações, sob efeito dos choques, os papéis se invertem e é o médico quem dá cabo dele. A Dra. Lorenson, cúmplice de Jack, seria uma representação da figura materna, doce e protetora, que cuida do pequeno Babak, um garoto frágil, possível projeção do Jack criança. Talvez não seja nada disso, até porque ainda estou engatinhando no estudo da Psicanálise. Mas nesse blog, que criei pra me ajudar na aprendizagem dos conceitos de Freud, não vou deixar meu Super Ego exercer nenhuma censura. Pelo pouco que já li da obra do mestre, para ele tanto as representações dos sonhos como as das alucinações seriam “realizações de desejos”. Isso me permite, mesmo sem informações sobre a infância dos personagens, vislumbrar na trama algo mais que uma história de suspense.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
amor para toda vida

Dirigido pelo veterano ator e diretor Richard Attenborough, "Closing the ring" se passa em duas épocas. Durante a II Guerra, a jovem Ethel se apaixona pelo adorável Teddy, que está prestes a ser convocado. O casamento é apressado e ela entrega ao amado o anel que selou a união do casal. Este será o elo de ligação entre esse tempo de amor, juventude e bombas e a segunda fase do filme quando, já idosa, Ethel recebe um telefonema da Irlanda de alguém que encontrou o anel de Teddy, entre os escombros de um B-17. Nesse meio tempo, Ethel teve que lidar com a perda do marido. Para Freud, o luto é um teste de realidade. O objeto amado não existe mais e a libido (energia psíquica) precisa ser retirada daquele objeto. Não se abandona de bom grado uma posição libidinal. Nem mesmo, quando um substituto já se acena. No filme, o substituto tinha sido escolhido pelo próprio Teddy. Antes de partir, ele pedira ao amigo Chuck que cuidasse de Ethel se não voltasse. Mesmo aceitando se casar com Chuck, Ethel não se desapega das lembranças do marido, a ponto de cobrir com um tapume a parede que continha suas fotos. Apaixonado por ela, Chuck aceita conviver com aquele fantasma atrás da parede. Mas Marie, o fruto do seu casamento com Ethel, se revolta diante da falta de amor da mãe pelo pai. Até que ponto, aqui já entra o Complexo de Édipo da garota, não sei. A essa altura, o triângulo vira um quadrado quando percebemos que Jack, outro amigo de Teddy também alimentara, a vida inteira uma paixão secreta pela viúva. Daí a importância do reaparecimento do anel. Viúva pela segunda vez, Ethel, a principio, recusa-se a reaver a jóia. Mas quando o irlandês atravessa o oceano pra entregá-la, a viúva se dá conta que precisava daquela prova pra concluir seu trabalho de luto. Com ele encerrado, o ego de Ethel está livre e desinibido pra viver, desta vez, uma relação plena com aquele que esperou a vida toda por ela.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Uma prova de amor

O último filme de Nick Cassavetes narra o drama de uma família que vê sua filhinha de apenas 2 anos receber o diagnóstico de leucemia. Apesar de esta ser uma doença, hoje em dia, bastante curável, a da garota era de um tipo mais complicado que pedia um transplante de medula. Aconselhados pelo médico, os pais geram outro bebê pra ser o doador da pequena Kate. Com essa missão, Anne vem ao mundo. Se fosse numa novela de Manoel Carlos, estaria tudo resolvido. Mas no drama, baseado no livro "Sister Keeper" de Jodi Picault, as coisas não são tão fáceis. Além da medula, Anne também acaba doando células-tronco pra irmã. Mais adiante a mãe decide que ela também teria que abrir mão de um rim. Aqui, a garota começa a reivindicar o domínio sobre o próprio corpo e vai à justiça. Terá a família o direito de mutilar mais uma vez a caçula em nome dessa guerra contra o câncer que a cada dia se revela perdida? Esse é o grande questionamento do filme. Para uns críticos a intenção do diretor era provocar lágrimas. Em mim, provocou uma reflexão sobre os limites entre a vida e a morte. Até que ponto devemos lutar pela vida? No momento em que a própria doente, cansada de sofrer, começa a jogar a toalha, é correto continuar dando murro em ponta de faca? Pra a mãe, brilhantemente interpretada por Cameron Diaz, é. Não queria estar no seu lugar. Ninguém aceita perder um filho. o mecanismo de defesa dessa mãe diante de tamanha dor é exercer o controle. Ela manipula a família pra salvar Kate. O que tem por trás disso? Culpa pela doença da menina? Não teria sido uma mãe suficientemente boa pra curá-la? Por outro lado, estará sendo uma boa mãe pra Anna obrigando-a doar o rim? A virada do filme alivia o espectador dessa escolha ética. E ajuda a entender que aceitar a morte também faz parte da vida. Belo filme.
Inteligencia Artificial

Quando levei meu filho, então adolescente, pra assistir a esse filme, há cerca de 10 anos, não gostei. Vi nele todos os defeitos que os cinéfilos atribuem à cinematografia de Spielberg, a começar pela pieguice. Ontem, novamente com meu filho, hoje estudante de cinema e fã de Kubrick, o idealizador do projeto, o revi com outros olhares. Um que nos levou a especular quais trechos do filme eram puro Kubrick, quais tinham o dedo de Spielberg. Outro, o de estudante de Psicanálise, que me levou a buscar na trama referências à teoria de Freud. Àquela luta desesperada do robozinho David pra virar menino de verdade e cair nas graças da sua adorada mamãe, Freud deu o nome de Complexo de Édipo. E sobre ele ergueu sua teoria da sexualidade infantil, que tanto reboliço causou na Viena do começo do século passado. O que faltava a David pra ser orgânico, como os outros moleques? Coração não era, pelo menos não no sentido figurado. O menino-brinquedo amava, sofria e sentia culpa. O que seu irmão e sobretudo seu pai tinham que ele não tinha? Bingo pra quem pensou do pênis. Esse era o handicap de ser robô. Ter pulado a fase oral e crescido sem experimentar as delícias do seio da mamãe, já é uma lacuna difícil de ser preenchida. Não ter vivido a fase anal, afinal não tinha nem aparelho digestivo, também deve ter deixado lá suas seqüelas. Mas ser um "sem pinto" é pior do que ser menina. Pelo menos elas vivem a ilusão de que já tiveram um falo e a mamãe permitiu que o cortassem fora. Como é que o infeliz poderá resolver sua fantasia de substituir o papai na cama da mamãe? Não é à toa que David passa 2000 anos correndo atrás da Fada Azul do Pinocchio para que ela também o transforme num menino de verdade. Numa saga que lembra a de Dorothy e seus companheiros do Mágico de Oz, David, finalmente, pede pra imagem de Nossa Sra da Conceição que o coloque frente a frente com a mãe que, assim como os pai de Joãozinho e Maria, o abandonara na floresta. Mesmo sabendo que o encontro só duraria um dia, David encara. E é o dia mais feliz de sua vida. No mundo real não existem fadas azuis pra realizar os desejos recalcados do nosso aparelho psíquico. Felizmente existe a Psicanálise que nos ajuda a trazê-los pro consciente, permitindo-nos decidir se queremos ou não realizá-los.
Regras da Vida

Baseado no best-seller de John Irving, o filme que Lasse Hallstrom dirigiu em 99, com Tobey Macguire no papel de um órfão criado numa instituição do Maine, discute a ambigüidade dos códigos morais. Filho de uma alcólatra, Homer Wells é entregue aos cuidados do Dr. Larch e de sua equipe pra ser adotado. Dois casais chegam a levar o bebê pra casa, mas por um motivo ou por outro, devolvem-no ao médico que se apega à criança, criando-o como filho. Ensina ao garoto tudo sobre Obstetrícia, para o bem ou para o mal. Pro Dr. Larch, trazer crianças ao mundo ou mandá-las pro céu, não faz diferença, desde que ele resolva o problema daquelas mães, na maioria das vezes pobres ou jovens demais para criá-las. Ao tornar-se adulto, Homer põe-se a questionar a prática paterna. Mesmo nunca tendo saída daquela instituição onde se pratica o aborto, uma voz dentro do garoto diz que aquilo não é correto. A essa voz a Psicanálise dá o nome de Superego, a instância psíquica que ajuda o Ego a controlar as pulsões do Id, nosso grande reservatório de energia psíquica. Uma espécie de censor ou juiz do Ego, o Superego internaliza as interdições dos pais, sem falar naquelas que o bebê já traz ao nascer, passadas de geração em geração por nossos ancestrais. E um dos valores mais indiscutíveis entre a espécie humana é o da preservação da vida. É por isso que, mesmo tendo crescido numa instituição como aquela, Homer rejeita a prática paterna, a ponto de abandonar a instituição onde crescera, na primeira oportunidade. Rejeitando a figura do Dr. Larch, decide correr atrás do próprio destino. É quando começa a entrar em conflito com outras regras da vida. Empregando-se como colhedor numa fazenda de maçãs, envolve-se num triângulo amoroso, enfrentando a censura dos companheiros de alojamento. Mas isso é só o começo. Entre estes colegas, todos negros e nômades, uma jovem aparece grávida. Ao constatar que o pai do bebê e o pai da menina são a mesma pessoa, Homer se revolta. Afinal, o tabu do incesto é outra interdição do seu superego. A coisa complica quando o rapaz se depara com o dilema de utilizar seus conhecimentos de obstetrícia, pra tirar a menina Rose daquela enrascada. O valor da solidariedade fala mais alto. Nessa hora, Homer entender a escolha do pai de criação, perdoa o médico e aceita ocupar seu lugar na clínica. Também desconfio que "Regras da Vida" trata do Complexo de Édipo, na medida em sabemos que este se completa com a identificação do filho com o pai. A questão é se podemos falar em Édipo numa relação onde não há nenhuma figura materna como objeto de desejo.






