sábado, 20 de novembro de 2010

Dois irmãos

O cinema argentino retrata como ninguém os relacionamentos familiares. Se isso tem a ver com a força da Psicanálise naquele País, não sei. Mas o interesse daquele povo pelas teorias freudianas pode muito bem estar contribuindo para enriquecer os filmes daquele País com conteúdos psicanalíticos.  “Dois Irmãos”, o mais recente de Daniel Burmann, não deixa por menos. Depois de explorar relações entre pais e filhos e entre casais em sua filmografia anterior, dessa vez, o cineasta esmiúça o tumultuado relacionamento entre os irmãos Suzana e Marcos, solteirões na faixa dos 60, que acabam de perder a mãe e têm diante de si a tarefa de decidir o que fazer com a herança.  Suzana é quem detém o poder na família. Corretora de imóveis, faz e acontece, dominando o irmão completamente. Percebemos, no decorrer do filme, que o sensível Marcos era mais ligado à mãe, de quem cuidou até morrer, numa aparente fixação edipiana. Suzana, por sua vez, deixa escapar nos diálogos  a ligação especial com o pai, que pode ter evoluído para uma identificação, levando-a a assumir o poder fálico da família. Baseado num romance de Sergio Dubcovsky, o filme não toma partido nem da histriônica Suzana, nem do silencioso Marcos. Mas aos poucos percebemos o quanto havia de castrador no poder de Suzana, e o quanto o Marcos consegue crescer quando se afasta dela. Refugiado na propriedade que ela adquire para os dois no Uruguai, o solteirão abraça sua profissão de joalheiro e, de quebra, ainda descobre sua veia artística, integrando-se a uma trupe teatral. A peça que está sendo ensaiada é nada mais nada menos que Édipo Rei, clara referência ao complexo que se tornaria um dos alicerces da Psicanálise. Alguns críticos viram na amizade de Marcos com o diretor da peça um viés homossexual. Pode ser. Mas diria que a figura do diretor representa para Marcos, mais um Pai merecedor da sua admiração com quem ele pode se identificar, matando o pai castrador, a quem ele se submetera a vida inteira. Um pai que, por acaso veste saias, e atende pelo nome de Suzana. Por nunca ter tido o afeto da mãe, a moça morre de inveja do irmão e se incomoda muito com o sucesso dele. Coisa de irmãos. Num mundo onde todos carregamos  os mesmos arquétipos desde Adão e Eva, não duvido de que haja um Caim e um Abel escondidos no fundo dos nossos inconscientes.  

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