quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A era do rádio

Os filmes de Woody Allen são um prato cheio para estudantes de psicanálise. Freqüentador assíduo de divãs, o diretor, quando não retrata os seguidores de Freud em seus filmes, assume o papel deles, como em “A era do Rádio”, empreendendo uma viagem pelo inconsciente dos personagens, no caso ele mesmo criança. Um professor do IBCP disse, certa vez, que o psicanalista trata da criança que existe no paciente. Em a “Era do Rádio”, Allen desconstrói o inconsciente do Joe adulto (o narrador) através dos olhos do garoto. O filme é um delicioso mergulho no universo de uma típica família judáica do Brooklin, durante a II Guerra. Mais exatamente a própria família de Allen . Filho de um taxista, Allan Stewart Königsberg, leva para o filme a falta de admiração pela profissão paterna, num mundo onde os ricos, chiques e glamurosos do show business é que eram valorizadas. Esses conceitos deviam refletir o desejo do menino Allan, de ser artista quando crescesse. E não se pode dizer que não tenha sido plenamente realizado. Mas voltando ao pai de Joe, há um momento chave no filme, quando ele aplica umas palmadas no bumbum do moleque, por ter usado a dentadura da vovó como disco de hockey. Em meio à surra de cinta, clara demonstração do papel paterno de estabelecer limites para o filho, o rádio, único canal de comunicação daquela família com o mundo, noticia que uma menina, aproximadamente da idade de Joe, havia desaparecido de casa e, dias depois, sido encontrada num poço. O resgate dessa criança é acompanhado por toda Nova York, com a mesma consternação com que há 2 anos o Brasil se envolveu no caso Isabela Nardoni. Quando os ouvintes, entre os quais a família de Joe, recebem a notícia de que a menina havia morrido, o pai de Joe agarra-o no colo com tanta tristeza que fica clara a sua culpa por todas as surras e maus-tratos que inflingira no menino ao longo da vida. A cena é tocante. Nos lembra de como nossos pais se culparam, quando não fomos nós que os culpamos, de atos praticados com a melhor intenção de nos educar. Tá certo que de boas intenções o inferno está cheio. Mas pra que transformar a vida na terra num inferno, perpetuando essas culpas ad eternum?

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