domingo, 21 de novembro de 2010

Quando partimos


Depois de ganhar o troféu "Bandeira Paulista" de melhor filme na Mostra de São Paulo, "Die Fremde", da austríaca Feo Aladag, está sendo indicado ao Oscar de filme estrangeiro do próximo ano. Com roteiro da própria diretora, que também é atriz, "Quando partimos" conta a história trágica, como tantas, da muçulmana Umay, casada com um turco de Istambul. Depois de realizar um aborto contra a vontade, a moça abandona o marido opressor, que batia nela e no filho, e volta à casa da família em Berlin, com o pequeno Cem a tiracolo. Para sua decepção, os pais e irmãos, também muçulmanos, não aceitam a separação e passam a vê-la como uma ameaça à boa reputação do clã. Chegam a concordar com a idéia de que Cem devia ser entregue ao pai violento. Também se apavoram diante do perigo que uma irmã separada representa para o casamento da filha caçula. Desconsolada com a falta de apoio da mãe e com a prepotência do pai e dos irmãos, Umay abandona a casa paterna atrás de um emprego e de um lugar para morar. A submissão da mulher na sociedade muçulmana não é novidade no cinema. Também vemos, a toda hora na mídia, casos de assassinatos e outras insanidades cometidas em nome de Alá. O que torna "Quando partimos" diferente dessas histórias reais ou fictícias é o foco nos sentimentos da protagonista. Alguns críticos se incomodaram com o fato de a moça não tomar nenhuma atitude drástica para romper com essa família tão pouco acolhedora. Aí é que entram os afetos de que trata a Psicanálise. Umay amava aquela família. Não conseguia aceitar por que o pai dava mais importância ao "que os outros iriam pensar" do que às suas necessidades. Tampouco entendia como a mãe, de quem esperava amor incondicional, se afastara dela na hora em que ela mais precisara. Mais do que um filme sobre a repressão muçulmana, "Quando partimos" é um mergulho no drama da rejeição. Quando a amiga e patroa diz a Umay que, dali pra frente, sua família seria só ela e o filho, não deve ter sido fácil para a moça receber aquela verdade. Assim como não é para nenhuma mulher que passa a ser rotulada de "puta", por ter desafiado as regras paternas, em famílias católicas, evangélicas ou judias. É nessa hora que a Psicanálise pode ajudar pais e filhos a digerirem essas verdades. Mas se olhar no espelho exige tanta ou mais coragem do que desafiar regras e quebrar tabus.

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