
Quando levei meu filho, então adolescente, pra assistir a esse filme, há cerca de 10 anos, não gostei. Vi nele todos os defeitos que os cinéfilos atribuem à cinematografia de Spielberg, a começar pela pieguice. Ontem, novamente com meu filho, hoje estudante de cinema e fã de Kubrick, o idealizador do projeto, o revi com outros olhares. Um que nos levou a especular quais trechos do filme eram puro Kubrick, quais tinham o dedo de Spielberg. Outro, o de estudante de Psicanálise, que me levou a buscar na trama referências à teoria de Freud. Àquela luta desesperada do robozinho David pra virar menino de verdade e cair nas graças da sua adorada mamãe, Freud deu o nome de Complexo de Édipo. E sobre ele ergueu sua teoria da sexualidade infantil, que tanto reboliço causou na Viena do começo do século passado. O que faltava a David pra ser orgânico, como os outros moleques? Coração não era, pelo menos não no sentido figurado. O menino-brinquedo amava, sofria e sentia culpa. O que seu irmão e sobretudo seu pai tinham que ele não tinha? Bingo pra quem pensou do pênis. Esse era o handicap de ser robô. Ter pulado a fase oral e crescido sem experimentar as delícias do seio da mamãe, já é uma lacuna difícil de ser preenchida. Não ter vivido a fase anal, afinal não tinha nem aparelho digestivo, também deve ter deixado lá suas seqüelas. Mas ser um "sem pinto" é pior do que ser menina. Pelo menos elas vivem a ilusão de que já tiveram um falo e a mamãe permitiu que o cortassem fora. Como é que o infeliz poderá resolver sua fantasia de substituir o papai na cama da mamãe? Não é à toa que David passa 2000 anos correndo atrás da Fada Azul do Pinocchio para que ela também o transforme num menino de verdade. Numa saga que lembra a de Dorothy e seus companheiros do Mágico de Oz, David, finalmente, pede pra imagem de Nossa Sra da Conceição que o coloque frente a frente com a mãe que, assim como os pai de Joãozinho e Maria, o abandonara na floresta. Mesmo sabendo que o encontro só duraria um dia, David encara. E é o dia mais feliz de sua vida. No mundo real não existem fadas azuis pra realizar os desejos recalcados do nosso aparelho psíquico. Felizmente existe a Psicanálise que nos ajuda a trazê-los pro consciente, permitindo-nos decidir se queremos ou não realizá-los.

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