quarta-feira, 2 de junho de 2010

Não se preocupe, estou bem


Dirigido pelo francês Phillipe Loiret, “Je vais bien, net’en fais” é um ótimo filme e está passando esses dias no Telecine Cult. Conta a história de Elise, uma garota de classe média parisiense, que aos 19 anos viaja para a Espanha de férias e quando volta, descobre que seu querido irmão havia se desentendido com os pais e saído de casa. Atônita, a menina cai numa depressão profunda e é internada numa instituição psiquiátrica onde, por se recusar a comer, acaba sendo alimentada por soro. No fim do filme vamos descobrir que quem precisava de tratamento psiquiátrico eram os pais. Mas, nesse meio tempo, o pai traz uma carta do irmão pra ela, o que lhe devolve a vontade de viver. Na volta pra casa, passa a receber, a cada semana, um cartão postal do irmão, de diferentes lugares da França. Na correspondência, o pai é sempre criticado, enquanto pra ela e pra mãe o irmão envia beijos afetuosos. Um dia, ela flagra o pai colocando um cartão no correio de uma cidade próxima. Agradecida pela atitude paterna que, mal ou bem, salvara-lhe a vida, a jovem decide apresentar à família seu novo namorado, ex da sua melhor amiga. Sem querer, o rapaz desvenda o verdadeiro motivo do desaparecimento do cunhado. Não vou contar pra vocês, se é que alguém lê esse blog, pra não estragar a surpresa do filme. Independente desse segredo, o filme aprofunda uma questão fundamental nas relações entre pais e filhos. Por que os pais insistem tanto em “poupar” os filhos? Esconder, mentir, tapar o sol com peneira, são formas de mascarar a realidade que às vezes consideramos “pesada” pros nossos pequenos. Mas eles precisam crescer. Não só física como emocionalmente. Jogar a verdade pra baixo do tapete pode amenizar seu sofrimento. Mas não os ajuda nessa tarefa árdua do crescimento. Pra Psicanálise, o não-dito, as entrelinhas, as desculpas esfarrapadas, magoam tanto quanto ou mais que certas verdades. Como se alojam direto no nosso inconsciente, depois dão o maior trabalho pra serem resgatados. Por mais dolorosa que seja, acredito que a verdade deve nortear nossa relação com nossos filhos. Já chega os segredos que nossos pais esconderam de nós por tanto tempo. Alguns velhinhos levam o hábito da mentira até o fim da vida. Filhos só crescem quando os ajudamos a encarar a vida como ela é desde cedo. Sem maquiagem, sem pílulas douradas. Apoiá-los, sempre. Deixar claro que estamos ao seu lado pro que der e vier. Mas jamais impedi-los de encarar suas verdades.

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