
Já tinha gostado desse filme na época do lançamento, 97/98. Ontem, quando vi que estava passando no Universal Channel , resolvi revê-lo com olhar de estudante de psicanálise. O personagem principal, o escritor Melvin, mais uma brilhante performance de Jack Nicholson, sofre de uma patologia conhecida como TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo. Sua ansiedade se manifesta através da repetição compulsiva de rituais: só pisa em determinados pontos da calçada, fecha a porta várias vezes, chega ao restaurante sempre à mesma hora, etc. Além disso, Melvin é mal-humorado, egocêntrico e implicante. Ele conta ao psiquiatra que, quando era criança, seu pai autoritário o repreendia severamente quando errava as notas ao piano. O TOC, todavia, não é a única seqüela dessa educação excessivamente rígida. O escritor também sofre um bloqueio afetivo. Quando se percebe interessado pela garçonete Carol, não consegue demonstrá-lo. Chega a ajudá-la no tratamento do filho doente, mas ao convidá-la pra sair é incapaz de tirá-la pra dançar. Outro tema psicanalítico do filme é a sublimação, o único mecanismo de defesa saudável que nosso aparelho psíquico produz. O vizinho de Melvin é um pintor gay. Depois de sofrer um assalto violento, fica impossibilitado de pintar. Procura os pais pra pedir ajuda e recebe um sonoro não. Arrasado pela rejeição da família, motivada por preconceito, se aproxima de Carol. Numa noite, ao contemplar suas costas semi-nuas da moça no banheiro da suíte que compartilham, sua inspiração retorna. Sublimar seu sofrimento através da arte devolve-lhe a alegria de viver. Seu exemplo e seus conselhos estimulam Melvin a entrar em sintonia com os próprios sentimentos e procurar a garçonete. É quando ele percebe que não está mais fechando porta vária vezes: está se curando do TOC. Claro que na vida real as coisas não são tão fáceis. Mas entrar em contato com nossos desejos e afetos é meio caminho andado pra nos livrarmos de pensamentos e atitudes obsessivas. Pra isso a psicanálise tem muitas ferramentas.

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