sábado, 14 de agosto de 2010

Reflexões de um Liquidificador


André Klotzel tem mão pra comédia. Foi a lembrança das cenas hilárias da Fernandinha Torres em “Marvada Carne” que me levaram a enfrentar esta tarde gelada de sábado pra assistir ao último filme do diretor. Com a excelente Ana Lúcia Torres no papel de uma dona de casa de classe média baixa de São Paulo, o filme tem como personagem principal um liquidificador velho, mas ainda na ativa, que não só narra o filme com a voz do Selton Mello, como também troca idéias com sua dona. Mais que isso, o eletrodoméstico é cúmplice da esposa do Seu Onofre, quando esta, ao descobrir que o sacana tem uma amante jovem, resolve, literalmente, moê-lo no eletrodoméstico. Essa “Chico Picadinho” de saias, é investigada ao longo do filme por um policial que desconfia dela. Infelizmente, pra polícia e pra justiça, a criminosa jamais poderá ser condenada já que o corpo foi pelo ralo. O bacana do filme é que Klotzel não se mete a julgar a assassina, muito menos se dá ao trabalho, que também poderíamos pretender nesse blog, de analisar sua ausência de culpa como um sinal de psicopatia. Tudo isso, André joga pra nós, espectadores. Na verdade o melhor do filme, pra mim, e que justifica comentá-lo aqui, aconteceu no toalete do cinema. Ao saber que eu e outra espectadora iríamos assistir ao filme, uma senhora tentou nos dissuadir. “É um filme de humor negro!”, “ainda dá pra vocês trocarem de sala!”. Ao longo do filme, entendi o desconforto daquela mulher. Quem não garante que ela não tenha tido um impulso semelhante de se livrar de um marido velho e galinha e jamais tenha conseguido admiti-lo pra si mesma?

domingo, 13 de junho de 2010

Dr T e as mulheres


Com o charmoso Richard Gere no papel de um ginecologista bem sucedido, Robert Altman, retrata, com o sarcasmo de sempre, o mundo perfeito e barulhento das mulheres de classe média alta de Dallas, em nada diferente do das nossas peruas da alta sociedade. No começo do filme, descobrimos que a esposa do médico está pirando. Numa visita ao shopping, programa preferido de 9 entre 10 madames, ela larga filhas e irmã numa loja e desaparece do nada. Mais tarde a família é avisada que está presa, depois de dançar nua na chafariz do templo de consumo. Internada numa clínica, Kate, numa ótima performance da pantera Farrow Fawcetts, é diagnosticada como portadora do Complexo de Héstia. Não achei nada na web sobre essa patologia. Segundo a psicóloga do filme, seria uma síndrome que ataca mulheres, principalmente da classe alta, que são amadas demais. Se non e vero, e bem trovato. Como estão com a vida ganha, em todos os sentidos: têm dinheiro, amor, carinho da família, entrariam num processo de regressão a um estado infantil, rejeitando o sexo, como se tivessem voltado a ser virgens. De fato, Héstia, filha de Cronos e irmão de Zeus, preservou sua virgindade e é considerada a deusa do lar, da família. Numa interpretação jungiana do filme, Kate seria considerada uma mulher Héstia, voltada pra família. Mas pelo desenrolar dos acontecimentos, que nos filmes de Altman é sempre frenético, eu apostaria que a perturbação daquela mãe de noiva tinha outra origem. Às vésperas de se casar com um mauricinho aprovado pela família, a filha Dee-dee, papel de Kate Hudson, é apontada pela irmã Connie, que morre de inveja dela, como lésbica. Papai T se choca com a notícia. Mas duvido que mamãe Kate já não tivesse percebido a inclinação homossexual da menina. Afinal, pra que serve a intuição feminina? Como o que leva uma moça a preferir fazer sexo com outra, segundo Freud, é uma fixação numa fase imatura da sexualidade, a fase fálica, dá pra concluir que, no caso, quem regride não é a mãe e sim, a garota. Que leva sua opção às últimas conseqüências, largando o noivo no altar pra fugir com a namorada. Como se sente uma mãe diante de uma constatação dessas? No mínimo, bate aquela culpa: onde foi que eu errei? Se essa culpa pode levar uma perua a ficar pelada no Shopping, não sei, não conheço profundamente os aparelhos psíquicos dessas senhoras. Mas quero estar preparada pra um dia ouvir uma confissão dessas numa sessão de Psicanálise.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Não se preocupe, estou bem


Dirigido pelo francês Phillipe Loiret, “Je vais bien, net’en fais” é um ótimo filme e está passando esses dias no Telecine Cult. Conta a história de Elise, uma garota de classe média parisiense, que aos 19 anos viaja para a Espanha de férias e quando volta, descobre que seu querido irmão havia se desentendido com os pais e saído de casa. Atônita, a menina cai numa depressão profunda e é internada numa instituição psiquiátrica onde, por se recusar a comer, acaba sendo alimentada por soro. No fim do filme vamos descobrir que quem precisava de tratamento psiquiátrico eram os pais. Mas, nesse meio tempo, o pai traz uma carta do irmão pra ela, o que lhe devolve a vontade de viver. Na volta pra casa, passa a receber, a cada semana, um cartão postal do irmão, de diferentes lugares da França. Na correspondência, o pai é sempre criticado, enquanto pra ela e pra mãe o irmão envia beijos afetuosos. Um dia, ela flagra o pai colocando um cartão no correio de uma cidade próxima. Agradecida pela atitude paterna que, mal ou bem, salvara-lhe a vida, a jovem decide apresentar à família seu novo namorado, ex da sua melhor amiga. Sem querer, o rapaz desvenda o verdadeiro motivo do desaparecimento do cunhado. Não vou contar pra vocês, se é que alguém lê esse blog, pra não estragar a surpresa do filme. Independente desse segredo, o filme aprofunda uma questão fundamental nas relações entre pais e filhos. Por que os pais insistem tanto em “poupar” os filhos? Esconder, mentir, tapar o sol com peneira, são formas de mascarar a realidade que às vezes consideramos “pesada” pros nossos pequenos. Mas eles precisam crescer. Não só física como emocionalmente. Jogar a verdade pra baixo do tapete pode amenizar seu sofrimento. Mas não os ajuda nessa tarefa árdua do crescimento. Pra Psicanálise, o não-dito, as entrelinhas, as desculpas esfarrapadas, magoam tanto quanto ou mais que certas verdades. Como se alojam direto no nosso inconsciente, depois dão o maior trabalho pra serem resgatados. Por mais dolorosa que seja, acredito que a verdade deve nortear nossa relação com nossos filhos. Já chega os segredos que nossos pais esconderam de nós por tanto tempo. Alguns velhinhos levam o hábito da mentira até o fim da vida. Filhos só crescem quando os ajudamos a encarar a vida como ela é desde cedo. Sem maquiagem, sem pílulas douradas. Apoiá-los, sempre. Deixar claro que estamos ao seu lado pro que der e vier. Mas jamais impedi-los de encarar suas verdades.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Caos Calmo


Dirigido por Antonello Grimaldo, não foi à toa que “Caos Calmo” recebeu indicação ao Urso de Ouro em Berlim e mais três David di Donatello 2008. Assim como o filme anterior do diretor, “O Quarto do filho”, “Caos calmo” trata do luto. Enquanto o protagonista Piero (Nanni Moretti) está salvando duas mulheres de um afogamento, sua esposa morre, de repente, em casa, deixando-lhe uma filha de 10 anos pra cuidar. Pra Freud, o luto é a reação à perda de um ente querido ou de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal. Em algumas pessoas, estas influências produzem melancolia em vez de luto. Não é o caso do nosso personagem. Segundo o mestre da Psicanálise, o luto afasta a pessoa de suas atitudes normais pra com a vida. De fato, após a morte da esposa, Pietro se afasta do emprego e passa a dar plantão na praça em frente ao colégio da filha. Sentado no banco da praça, ele calmamente elabora sua perda. Apesar do sangue italiano, atinge seu objetivo sem lágrimas, gritos ou ranger de dentes. Nas conversas com os parentes e amigos que o procuram na praça fica claro o espanto diante da reação cool do viúvo, reação essa que se repete na filha, mostrando a força do exemplo na formação das crianças. Mas voltando à Psicanálise, sabemos que este afastamento da vida normal não é patológico quando, após certo tempo, é superado. Esse tempo varia de pessoa pra pessoa. O de Pietro termina no dia em que a filha Cláudia lhe pede, de presente de aniversário, que este deixe de esperá-la à tarde inteira em frente à escola. Esse diálogo é um exemplo de relacionamento saudável entre pai e filha. Ele aceita o pedido da menina com a mesma calma com que lidou aqueles meses todos com seu luto. Sem mágoas, sem se ofender, nem se sentir rejeitado. Quantos “pães”, isso mesmo, aqueles homens que por viuvez ou separação assumem o duplo papel na educação dos filhos, aceitariam tal pedido com tanta fleugma?

domingo, 23 de maio de 2010

Melhor impossível


Já tinha gostado desse filme na época do lançamento, 97/98. Ontem, quando vi que estava passando no Universal Channel , resolvi revê-lo com olhar de estudante de psicanálise. O personagem principal, o escritor Melvin, mais uma brilhante performance de Jack Nicholson, sofre de uma patologia conhecida como TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo. Sua ansiedade se manifesta através da repetição compulsiva de rituais: só pisa em determinados pontos da calçada, fecha a porta várias vezes, chega ao restaurante sempre à mesma hora, etc. Além disso, Melvin é mal-humorado, egocêntrico e implicante. Ele conta ao psiquiatra que, quando era criança, seu pai autoritário o repreendia severamente quando errava as notas ao piano. O TOC, todavia, não é a única seqüela dessa educação excessivamente rígida. O escritor também sofre um bloqueio afetivo. Quando se percebe interessado pela garçonete Carol, não consegue demonstrá-lo. Chega a ajudá-la no tratamento do filho doente, mas ao convidá-la pra sair é incapaz de tirá-la pra dançar. Outro tema psicanalítico do filme é a sublimação, o único mecanismo de defesa saudável que nosso aparelho psíquico produz. O vizinho de Melvin é um pintor gay. Depois de sofrer um assalto violento, fica impossibilitado de pintar. Procura os pais pra pedir ajuda e recebe um sonoro não. Arrasado pela rejeição da família, motivada por preconceito, se aproxima de Carol. Numa noite, ao contemplar suas costas semi-nuas da moça no banheiro da suíte que compartilham, sua inspiração retorna. Sublimar seu sofrimento através da arte devolve-lhe a alegria de viver. Seu exemplo e seus conselhos estimulam Melvin a entrar em sintonia com os próprios sentimentos e procurar a garçonete. É quando ele percebe que não está mais fechando porta vária vezes: está se curando do TOC. Claro que na vida real as coisas não são tão fáceis. Mas entrar em contato com nossos desejos e afetos é meio caminho andado pra nos livrarmos de pensamentos e atitudes obsessivas. Pra isso a psicanálise tem muitas ferramentas.

domingo, 16 de maio de 2010

Pecados inocentes


Baseado na vida da socialite americana Barbara Baekeland, que foi casada com o dono da Baquelite, “Pecados inocentes” aborda um dos maiores tabus da sociedade ocidental: o incesto. Até pouco tempo, eu acreditava que a origem da proibição de uniões entre familiares estaria na probabilidade biológica de nascerem crianças com má-formação se os pais transassem com as filhas, as mães com os filhos ou irmãos com irmãs. Balela! Tanto nascem crianças “com problemas” de pais parentes quanto dos que não o são. Segundo a antropologia, essa interdição foi uma maneira de nossos antepassados forçarem a aproximação entre grupos sociais diferentes, fundamental pro desenvolvimento da comunicação e das ferramentas. Mas a proibição ficou lá, guardada no inconsciente dos primeiros humanos e foi passando de geração em geração até consolidar-se naquilo que Freud chama de Superego, uma espécie de juiz que diz pro ego o que é certo e o que é errado. Desse embate entre as regras do superego e os desejos do id é que nascem nossos maiores conflitos. Voltando ao filme, Barbara tem um filho chamado Tony, apaixonado por ela, como todos os bebês. É o Complexo de Édipo que, normalmente, se resolve quando o menino aceita que é o papai e não ele, o companheiro da mamãe. E que este pode ensiná-lo a ser um homem de verdade pra, um dia, conseguir uma mulher tão bacana quanto a mamãe. Como alem de não ser um cara bacana, com o tempo, o pai de Tony cai fora, o garoto leva seu Édipo às últimas conseqüências e acaba transando com a mãe. Chegam a formar um triângulo amoroso com um amante bissexual de Bárbara. Mesmo filmadas com toda a delicadeza, as relações incestuosa chocam o espectador. E provavelmente seus protagonistas. Ao ponto de Tony terminar matando a mãe. Não satisfeito, sai da cadeia anos depois e liquida a avó! Finalmente, se mata. Tragédia pouca é bobagem nesse embróglio familiar que é um prato cheio pros discípulos de Freud. Teria o rapaz sentido tanta culpa por ter tomado o lugar do pai no leito materno a ponto de punir a mãe pela permissão? E a avó? O que a pobre senhora tinha a ver com isso? Culpa por ter botado no mundo uma filha tão devassa? Vai saber? Nesses celeiros de culpas e fantasias que são nosso inconsciente nada vai parar lá por acaso. Há conteúdos que são nitroglicerina pura: tão perigosas pro próprio sujeito quanto pra quem convive com ele. Inclusive o psicanalista.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Moulin Rouge


Adaptado do livro homônimo, que li aos 11 anos num Carnaval “de molho”, com hepatite, o filme “Moulin Rouge” de John Houston conta a história de Henri Toulouse-Lautrec, com as cores impressionistas de seus quadros. Filho de uma família nobre, o garoto Henri nasce com uma atrofia nas pernas e atinge a idade adulta com a altura de um anão. Rejeitado pelas mulheres do seu ambiente social, muda-se para Paris e se envolve com prostitutas e com as dançarinas do Moulin Rouge, o cabaret mais famoso do mundo. Sob o ponto de vista psicanalítico, é uma história de sublimação. Toda a dor da rejeição, da feiúra, do desprezo do pai, que não valorizava sua profissão, Lautrec desloca pra sua arte. Essa dedicação aos pincéis até ameniza seu sofrimento. Mas não impede que sobrem muitas mágoas pra serem afogadas no absinto, uma bebida que é quase um alucinógeno. Apaixonado pela mãe que o protege até o fim, Henri, aparentemente, não consegue “resolver” seu Édipo identificando-se com a aquela figura paterna nobre, arrogante e improdutiva. Esse motivo, somado à baixa auto-estima advinda do deplorável aspecto físico, o incapacitam a viver uma relação amorosa saudável. Porisso ele paga pelas companhias femininas. Quantos homens e mulheres rejeitados pela mãe e/ou massacrados por um pai autoritário não vivem relações desse tipo ainda hoje? E sem o talento do impressionista, primeiro artista a ter um quadro no Louvre em vida, pra sublimar sua dor em cores tão magníficas.