segunda-feira, 31 de maio de 2010

Caos Calmo


Dirigido por Antonello Grimaldo, não foi à toa que “Caos Calmo” recebeu indicação ao Urso de Ouro em Berlim e mais três David di Donatello 2008. Assim como o filme anterior do diretor, “O Quarto do filho”, “Caos calmo” trata do luto. Enquanto o protagonista Piero (Nanni Moretti) está salvando duas mulheres de um afogamento, sua esposa morre, de repente, em casa, deixando-lhe uma filha de 10 anos pra cuidar. Pra Freud, o luto é a reação à perda de um ente querido ou de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal. Em algumas pessoas, estas influências produzem melancolia em vez de luto. Não é o caso do nosso personagem. Segundo o mestre da Psicanálise, o luto afasta a pessoa de suas atitudes normais pra com a vida. De fato, após a morte da esposa, Pietro se afasta do emprego e passa a dar plantão na praça em frente ao colégio da filha. Sentado no banco da praça, ele calmamente elabora sua perda. Apesar do sangue italiano, atinge seu objetivo sem lágrimas, gritos ou ranger de dentes. Nas conversas com os parentes e amigos que o procuram na praça fica claro o espanto diante da reação cool do viúvo, reação essa que se repete na filha, mostrando a força do exemplo na formação das crianças. Mas voltando à Psicanálise, sabemos que este afastamento da vida normal não é patológico quando, após certo tempo, é superado. Esse tempo varia de pessoa pra pessoa. O de Pietro termina no dia em que a filha Cláudia lhe pede, de presente de aniversário, que este deixe de esperá-la à tarde inteira em frente à escola. Esse diálogo é um exemplo de relacionamento saudável entre pai e filha. Ele aceita o pedido da menina com a mesma calma com que lidou aqueles meses todos com seu luto. Sem mágoas, sem se ofender, nem se sentir rejeitado. Quantos “pães”, isso mesmo, aqueles homens que por viuvez ou separação assumem o duplo papel na educação dos filhos, aceitariam tal pedido com tanta fleugma?

domingo, 23 de maio de 2010

Melhor impossível


Já tinha gostado desse filme na época do lançamento, 97/98. Ontem, quando vi que estava passando no Universal Channel , resolvi revê-lo com olhar de estudante de psicanálise. O personagem principal, o escritor Melvin, mais uma brilhante performance de Jack Nicholson, sofre de uma patologia conhecida como TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo. Sua ansiedade se manifesta através da repetição compulsiva de rituais: só pisa em determinados pontos da calçada, fecha a porta várias vezes, chega ao restaurante sempre à mesma hora, etc. Além disso, Melvin é mal-humorado, egocêntrico e implicante. Ele conta ao psiquiatra que, quando era criança, seu pai autoritário o repreendia severamente quando errava as notas ao piano. O TOC, todavia, não é a única seqüela dessa educação excessivamente rígida. O escritor também sofre um bloqueio afetivo. Quando se percebe interessado pela garçonete Carol, não consegue demonstrá-lo. Chega a ajudá-la no tratamento do filho doente, mas ao convidá-la pra sair é incapaz de tirá-la pra dançar. Outro tema psicanalítico do filme é a sublimação, o único mecanismo de defesa saudável que nosso aparelho psíquico produz. O vizinho de Melvin é um pintor gay. Depois de sofrer um assalto violento, fica impossibilitado de pintar. Procura os pais pra pedir ajuda e recebe um sonoro não. Arrasado pela rejeição da família, motivada por preconceito, se aproxima de Carol. Numa noite, ao contemplar suas costas semi-nuas da moça no banheiro da suíte que compartilham, sua inspiração retorna. Sublimar seu sofrimento através da arte devolve-lhe a alegria de viver. Seu exemplo e seus conselhos estimulam Melvin a entrar em sintonia com os próprios sentimentos e procurar a garçonete. É quando ele percebe que não está mais fechando porta vária vezes: está se curando do TOC. Claro que na vida real as coisas não são tão fáceis. Mas entrar em contato com nossos desejos e afetos é meio caminho andado pra nos livrarmos de pensamentos e atitudes obsessivas. Pra isso a psicanálise tem muitas ferramentas.

domingo, 16 de maio de 2010

Pecados inocentes


Baseado na vida da socialite americana Barbara Baekeland, que foi casada com o dono da Baquelite, “Pecados inocentes” aborda um dos maiores tabus da sociedade ocidental: o incesto. Até pouco tempo, eu acreditava que a origem da proibição de uniões entre familiares estaria na probabilidade biológica de nascerem crianças com má-formação se os pais transassem com as filhas, as mães com os filhos ou irmãos com irmãs. Balela! Tanto nascem crianças “com problemas” de pais parentes quanto dos que não o são. Segundo a antropologia, essa interdição foi uma maneira de nossos antepassados forçarem a aproximação entre grupos sociais diferentes, fundamental pro desenvolvimento da comunicação e das ferramentas. Mas a proibição ficou lá, guardada no inconsciente dos primeiros humanos e foi passando de geração em geração até consolidar-se naquilo que Freud chama de Superego, uma espécie de juiz que diz pro ego o que é certo e o que é errado. Desse embate entre as regras do superego e os desejos do id é que nascem nossos maiores conflitos. Voltando ao filme, Barbara tem um filho chamado Tony, apaixonado por ela, como todos os bebês. É o Complexo de Édipo que, normalmente, se resolve quando o menino aceita que é o papai e não ele, o companheiro da mamãe. E que este pode ensiná-lo a ser um homem de verdade pra, um dia, conseguir uma mulher tão bacana quanto a mamãe. Como alem de não ser um cara bacana, com o tempo, o pai de Tony cai fora, o garoto leva seu Édipo às últimas conseqüências e acaba transando com a mãe. Chegam a formar um triângulo amoroso com um amante bissexual de Bárbara. Mesmo filmadas com toda a delicadeza, as relações incestuosa chocam o espectador. E provavelmente seus protagonistas. Ao ponto de Tony terminar matando a mãe. Não satisfeito, sai da cadeia anos depois e liquida a avó! Finalmente, se mata. Tragédia pouca é bobagem nesse embróglio familiar que é um prato cheio pros discípulos de Freud. Teria o rapaz sentido tanta culpa por ter tomado o lugar do pai no leito materno a ponto de punir a mãe pela permissão? E a avó? O que a pobre senhora tinha a ver com isso? Culpa por ter botado no mundo uma filha tão devassa? Vai saber? Nesses celeiros de culpas e fantasias que são nosso inconsciente nada vai parar lá por acaso. Há conteúdos que são nitroglicerina pura: tão perigosas pro próprio sujeito quanto pra quem convive com ele. Inclusive o psicanalista.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Moulin Rouge


Adaptado do livro homônimo, que li aos 11 anos num Carnaval “de molho”, com hepatite, o filme “Moulin Rouge” de John Houston conta a história de Henri Toulouse-Lautrec, com as cores impressionistas de seus quadros. Filho de uma família nobre, o garoto Henri nasce com uma atrofia nas pernas e atinge a idade adulta com a altura de um anão. Rejeitado pelas mulheres do seu ambiente social, muda-se para Paris e se envolve com prostitutas e com as dançarinas do Moulin Rouge, o cabaret mais famoso do mundo. Sob o ponto de vista psicanalítico, é uma história de sublimação. Toda a dor da rejeição, da feiúra, do desprezo do pai, que não valorizava sua profissão, Lautrec desloca pra sua arte. Essa dedicação aos pincéis até ameniza seu sofrimento. Mas não impede que sobrem muitas mágoas pra serem afogadas no absinto, uma bebida que é quase um alucinógeno. Apaixonado pela mãe que o protege até o fim, Henri, aparentemente, não consegue “resolver” seu Édipo identificando-se com a aquela figura paterna nobre, arrogante e improdutiva. Esse motivo, somado à baixa auto-estima advinda do deplorável aspecto físico, o incapacitam a viver uma relação amorosa saudável. Porisso ele paga pelas companhias femininas. Quantos homens e mulheres rejeitados pela mãe e/ou massacrados por um pai autoritário não vivem relações desse tipo ainda hoje? E sem o talento do impressionista, primeiro artista a ter um quadro no Louvre em vida, pra sublimar sua dor em cores tão magníficas.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O preço da traição


“Chloe”, dirigido por Atom Egoyan, é a versão americana de um filme francês sobre traição. A dúvida é quem trai quem. No aniversário de David, Catherine, sua esposa ginecologista, prepara uma festa surpresa pra ele. O aniversariante, que deveria chegar de uma viagem de negócios, perde seu vôo, para decepção da esposa e consternação dos convidados. No dia seguinte, Catherine descobre, pelo celular do parceiro, que ele havia passado a noite com outra mulher. Desesperada, e querendo saber até que ponto seu casamento está vulnerável, a doutora contrata uma prostituta pra seduzir David. Mas não percebe que é nela, Cahterine, que a garota de programa fica interessada. A menina começa a inventar uma série de encontros calientes com David, pra provocar ciúmes na médica. E consegue. Catherine acaba indo pra cama com ela. Como todos nós, ela tem seu lado bi-sexual e consegue ter prazer na relação lésbica. O que não impede que continue apaixonada pelo marido. Ao certificar-se da fidelidade de David, tudo que ela quer é ficar numa boa com ele e esquecer-se da jovem Chloe. Mas não contava que a moça se apaixonasse por ela. Se é paixão, ou obsessão de alguém tentando representar uma mãe ausente na infância, não temos elementos pra afirmar. Mas uma coisa dá pra concluir dessa história e de outras que acontecem em filmes ou na vida real. Precisamos fazer nossas escolhas com consciência. Principalmente se elas envolvem o emocional de outra pessoa. Catherine usou a menina pra resolver sua insegurança conjugal. Não ponderou que havia um ser humano por trás daquele rostinho bonito, com suas carências, necessidades e desejos. Ao tentar se desvencilhar dela, percebeu a enrascada em que se metera. As conseqüências foram trágicas. Se “Chloe” não fosse um filme, dificilmente o aparelho psíquico de Catherine passaria incólume por tal episódio. O superego não brinca em serviço. Quantas sessões de divã seriam necessárias pra expurgar a culpa de ter usado e jogado fora a prostitutazinha?

sábado, 8 de maio de 2010

Divinos Segredos


Dirigido por Callie Khouri, a premiada roteirista de "Thelma e Louise", “Divinos Segredos” traz Sandra Bullock e Ellen Burstyn nos papéis de uma mãe e uma filha cheias de conflitos. A filha Sidda é uma escritora famosa que, numa entrevista à Time, conta que sua infância infeliz a teria ajudado na carreira literária. Ao ver sua intimidade exposta, a mãe Vivi fica uma fera e inicia uma guerra de bater telefone uma na cara da outra. Quando a briga parece tomar o rumo de um rompimento, as três melhores amigas da mãe decidem intervir. Depois de um “Boa noite Cinderela”, seqüestram a jovem e a apresentam ao passado da mãe. Como na maioria das relações mãe e filha, a daquelas duas encerra um vale de mágoas e segredos. Afora os fatos intencionalmente ocultados das crianças, como a internação de Vivi após um surto psicótico, outros, por seu conteúdo extremamente doloroso, também haviam sido, por um mecanismo de defesa de Sidda, empurrados pro fundo do seu inconsciente. Exemplo: a surra que Vivi, ensandecida, aplicara nos filhos no meio da chuva. No acolhedor “cativeiro” das “tias”, Sidda se depara com fotos e recordações de uma Vivi adolescente, apaixonada pelo irmão de uma das amigas, que vai à guerra e não retorna. Casada com o pai de Sidda, Vivi, que sonhava ficar famosa, não se conforma com a vida medíocre de mãe de três pimpolhos e dona de casa. Descarrega toda sua frustração na bebida e nos remédios. As crises se agravam e as crianças sofrem. Como é usual nesses casos, tanto sofrimento afeta a capacidade futura de Sidda se entregar numa relação amorosa. Até porque nem só de lembranças tristes é povoado o nosso inconsciente. Ali também ficam armazenadas as culpas. Apaixonada pelo pai, como todas nós, segundo Freud, ela também carrega uma culpa indevida pela doença e depois pelo sumiço da mãe. Quando as lembranças são trazidas à tona e os mistérios esclarecidos, o alívio é geral. Claro que na vida real as coisas não seriam tão simples. Exigiria todo um trabalho psicanalítico pra que essas lembranças fossem elaboradas. Mas como é um filme, Sidda consegue se harmonizar com a mãe e, de quebra, se comprometer definitivamente com o companheiro que, há muito, esperava pra casar com ela. Vivi, por sua vez, livre da culpa de ter sido uma péssima mãe, cura as feridas na relação com a filha, e ainda descobre que era amor a paciência que o marido teve a vida inteira com ela.

Camisa de força


Dirigido pelo inglês John Maybury e produzido por George Clooney e Steven Sodenbergh, “The Jacket” conta a história de um veterano da Guerra do Golfo que, depois de levar um tiro na cabeça num assalto, é acusado de ter matado um policial e vai para um hospital psiquiátrico cumprir pena alternativa. Ali, é submetido a choques elétricos que o transportam a um tempo futuro. Tentando uma leitura psicanalítica de suas alucinações, diria que a figura do médico da clínica, Dr. Becker é uma representação do Pai, poderoso e repressor, objeto do ódio de Jack, que deseja matá-lo. Mas em sua alucinações, sob efeito dos choques, os papéis se invertem e é o médico quem dá cabo dele. A Dra. Lorenson, cúmplice de Jack, seria uma representação da figura materna, doce e protetora, que cuida do pequeno Babak, um garoto frágil, possível projeção do Jack criança. Talvez não seja nada disso, até porque ainda estou engatinhando no estudo da Psicanálise. Mas nesse blog, que criei pra me ajudar na aprendizagem dos conceitos de Freud, não vou deixar meu Super Ego exercer nenhuma censura. Pelo pouco que já li da obra do mestre, para ele tanto as representações dos sonhos como as das alucinações seriam “realizações de desejos”. Isso me permite, mesmo sem informações sobre a infância dos personagens, vislumbrar na trama algo mais que uma história de suspense.