domingo, 13 de junho de 2010

Dr T e as mulheres


Com o charmoso Richard Gere no papel de um ginecologista bem sucedido, Robert Altman, retrata, com o sarcasmo de sempre, o mundo perfeito e barulhento das mulheres de classe média alta de Dallas, em nada diferente do das nossas peruas da alta sociedade. No começo do filme, descobrimos que a esposa do médico está pirando. Numa visita ao shopping, programa preferido de 9 entre 10 madames, ela larga filhas e irmã numa loja e desaparece do nada. Mais tarde a família é avisada que está presa, depois de dançar nua na chafariz do templo de consumo. Internada numa clínica, Kate, numa ótima performance da pantera Farrow Fawcetts, é diagnosticada como portadora do Complexo de Héstia. Não achei nada na web sobre essa patologia. Segundo a psicóloga do filme, seria uma síndrome que ataca mulheres, principalmente da classe alta, que são amadas demais. Se non e vero, e bem trovato. Como estão com a vida ganha, em todos os sentidos: têm dinheiro, amor, carinho da família, entrariam num processo de regressão a um estado infantil, rejeitando o sexo, como se tivessem voltado a ser virgens. De fato, Héstia, filha de Cronos e irmão de Zeus, preservou sua virgindade e é considerada a deusa do lar, da família. Numa interpretação jungiana do filme, Kate seria considerada uma mulher Héstia, voltada pra família. Mas pelo desenrolar dos acontecimentos, que nos filmes de Altman é sempre frenético, eu apostaria que a perturbação daquela mãe de noiva tinha outra origem. Às vésperas de se casar com um mauricinho aprovado pela família, a filha Dee-dee, papel de Kate Hudson, é apontada pela irmã Connie, que morre de inveja dela, como lésbica. Papai T se choca com a notícia. Mas duvido que mamãe Kate já não tivesse percebido a inclinação homossexual da menina. Afinal, pra que serve a intuição feminina? Como o que leva uma moça a preferir fazer sexo com outra, segundo Freud, é uma fixação numa fase imatura da sexualidade, a fase fálica, dá pra concluir que, no caso, quem regride não é a mãe e sim, a garota. Que leva sua opção às últimas conseqüências, largando o noivo no altar pra fugir com a namorada. Como se sente uma mãe diante de uma constatação dessas? No mínimo, bate aquela culpa: onde foi que eu errei? Se essa culpa pode levar uma perua a ficar pelada no Shopping, não sei, não conheço profundamente os aparelhos psíquicos dessas senhoras. Mas quero estar preparada pra um dia ouvir uma confissão dessas numa sessão de Psicanálise.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Não se preocupe, estou bem


Dirigido pelo francês Phillipe Loiret, “Je vais bien, net’en fais” é um ótimo filme e está passando esses dias no Telecine Cult. Conta a história de Elise, uma garota de classe média parisiense, que aos 19 anos viaja para a Espanha de férias e quando volta, descobre que seu querido irmão havia se desentendido com os pais e saído de casa. Atônita, a menina cai numa depressão profunda e é internada numa instituição psiquiátrica onde, por se recusar a comer, acaba sendo alimentada por soro. No fim do filme vamos descobrir que quem precisava de tratamento psiquiátrico eram os pais. Mas, nesse meio tempo, o pai traz uma carta do irmão pra ela, o que lhe devolve a vontade de viver. Na volta pra casa, passa a receber, a cada semana, um cartão postal do irmão, de diferentes lugares da França. Na correspondência, o pai é sempre criticado, enquanto pra ela e pra mãe o irmão envia beijos afetuosos. Um dia, ela flagra o pai colocando um cartão no correio de uma cidade próxima. Agradecida pela atitude paterna que, mal ou bem, salvara-lhe a vida, a jovem decide apresentar à família seu novo namorado, ex da sua melhor amiga. Sem querer, o rapaz desvenda o verdadeiro motivo do desaparecimento do cunhado. Não vou contar pra vocês, se é que alguém lê esse blog, pra não estragar a surpresa do filme. Independente desse segredo, o filme aprofunda uma questão fundamental nas relações entre pais e filhos. Por que os pais insistem tanto em “poupar” os filhos? Esconder, mentir, tapar o sol com peneira, são formas de mascarar a realidade que às vezes consideramos “pesada” pros nossos pequenos. Mas eles precisam crescer. Não só física como emocionalmente. Jogar a verdade pra baixo do tapete pode amenizar seu sofrimento. Mas não os ajuda nessa tarefa árdua do crescimento. Pra Psicanálise, o não-dito, as entrelinhas, as desculpas esfarrapadas, magoam tanto quanto ou mais que certas verdades. Como se alojam direto no nosso inconsciente, depois dão o maior trabalho pra serem resgatados. Por mais dolorosa que seja, acredito que a verdade deve nortear nossa relação com nossos filhos. Já chega os segredos que nossos pais esconderam de nós por tanto tempo. Alguns velhinhos levam o hábito da mentira até o fim da vida. Filhos só crescem quando os ajudamos a encarar a vida como ela é desde cedo. Sem maquiagem, sem pílulas douradas. Apoiá-los, sempre. Deixar claro que estamos ao seu lado pro que der e vier. Mas jamais impedi-los de encarar suas verdades.