
Com o charmoso Richard Gere no papel de um ginecologista bem sucedido, Robert Altman, retrata, com o sarcasmo de sempre, o mundo perfeito e barulhento das mulheres de classe média alta de Dallas, em nada diferente do das nossas peruas da alta sociedade. No começo do filme, descobrimos que a esposa do médico está pirando. Numa visita ao shopping, programa preferido de 9 entre 10 madames, ela larga filhas e irmã numa loja e desaparece do nada. Mais tarde a família é avisada que está presa, depois de dançar nua na chafariz do templo de consumo. Internada numa clínica, Kate, numa ótima performance da pantera Farrow Fawcetts, é diagnosticada como portadora do Complexo de Héstia. Não achei nada na web sobre essa patologia. Segundo a psicóloga do filme, seria uma síndrome que ataca mulheres, principalmente da classe alta, que são amadas demais. Se non e vero, e bem trovato. Como estão com a vida ganha, em todos os sentidos: têm dinheiro, amor, carinho da família, entrariam num processo de regressão a um estado infantil, rejeitando o sexo, como se tivessem voltado a ser virgens. De fato, Héstia, filha de Cronos e irmão de Zeus, preservou sua virgindade e é considerada a deusa do lar, da família. Numa interpretação jungiana do filme, Kate seria considerada uma mulher Héstia, voltada pra família. Mas pelo desenrolar dos acontecimentos, que nos filmes de Altman é sempre frenético, eu apostaria que a perturbação daquela mãe de noiva tinha outra origem. Às vésperas de se casar com um mauricinho aprovado pela família, a filha Dee-dee, papel de Kate Hudson, é apontada pela irmã Connie, que morre de inveja dela, como lésbica. Papai T se choca com a notícia. Mas duvido que mamãe Kate já não tivesse percebido a inclinação homossexual da menina. Afinal, pra que serve a intuição feminina? Como o que leva uma moça a preferir fazer sexo com outra, segundo Freud, é uma fixação numa fase imatura da sexualidade, a fase fálica, dá pra concluir que, no caso, quem regride não é a mãe e sim, a garota. Que leva sua opção às últimas conseqüências, largando o noivo no altar pra fugir com a namorada. Como se sente uma mãe diante de uma constatação dessas? No mínimo, bate aquela culpa: onde foi que eu errei? Se essa culpa pode levar uma perua a ficar pelada no Shopping, não sei, não conheço profundamente os aparelhos psíquicos dessas senhoras. Mas quero estar preparada pra um dia ouvir uma confissão dessas numa sessão de Psicanálise.

