sábado, 14 de agosto de 2010

Reflexões de um Liquidificador


André Klotzel tem mão pra comédia. Foi a lembrança das cenas hilárias da Fernandinha Torres em “Marvada Carne” que me levaram a enfrentar esta tarde gelada de sábado pra assistir ao último filme do diretor. Com a excelente Ana Lúcia Torres no papel de uma dona de casa de classe média baixa de São Paulo, o filme tem como personagem principal um liquidificador velho, mas ainda na ativa, que não só narra o filme com a voz do Selton Mello, como também troca idéias com sua dona. Mais que isso, o eletrodoméstico é cúmplice da esposa do Seu Onofre, quando esta, ao descobrir que o sacana tem uma amante jovem, resolve, literalmente, moê-lo no eletrodoméstico. Essa “Chico Picadinho” de saias, é investigada ao longo do filme por um policial que desconfia dela. Infelizmente, pra polícia e pra justiça, a criminosa jamais poderá ser condenada já que o corpo foi pelo ralo. O bacana do filme é que Klotzel não se mete a julgar a assassina, muito menos se dá ao trabalho, que também poderíamos pretender nesse blog, de analisar sua ausência de culpa como um sinal de psicopatia. Tudo isso, André joga pra nós, espectadores. Na verdade o melhor do filme, pra mim, e que justifica comentá-lo aqui, aconteceu no toalete do cinema. Ao saber que eu e outra espectadora iríamos assistir ao filme, uma senhora tentou nos dissuadir. “É um filme de humor negro!”, “ainda dá pra vocês trocarem de sala!”. Ao longo do filme, entendi o desconforto daquela mulher. Quem não garante que ela não tenha tido um impulso semelhante de se livrar de um marido velho e galinha e jamais tenha conseguido admiti-lo pra si mesma?